Poeira

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Localização: Lisboa, Portugal

músico-escritor de canções, nascido em 1975 na Praia da Barra, Portugal www.myspace.com/jorgecruzpoeira

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Dois Mil Rostos

Ainda a propósito da viagem ao norte, há dois fins de semana atrás, e dividido sobre o papel deste blogue agora lincado como website de Jorge Cruz no myspace, queria deixar escritas pelo menos 400 palavras.

18 de Janeiro: Tinham-me dito que a FNAC de Coimbra não seria pêra doce. Talvez por ficar no cimo de uma colina do outro lado do Mondego. Talvez por ser sexta-feira e os estudantes estarem de volta às terras-natais. Não sei. Eu que em 15 anos de concertos nunca estivera na cidade para tocar, ia sem expectativas, cheguei atrasado ao soundcheck e arranquei para o concerto meio às apalpadelas para encontrar os pedais e pousar a boca no microfone. A verdade é que a reacção da sala muito bem composta foi calorosa. Acabei por conhecer umas quantas pessoas que já esperavam há uns anos para me ver tocar e os discos foram desaparecendo do expositor. Começava com o pé direito um fim de semana louco e, ainda por cima, a carlsberg estava fresquinha.
Findo o trabalho, segui com o Chris Murphy (tour manager e documentarista de serviço) para o concerto do Old Jerusalem no Salão Brasil. Mais tarde, no Quebra-Costas, passámos uma boa noite a cavaquear com os amigos da Borland e o caríssimo Tiger Man (um dos bandidos do rock português com verdadeiro sangue na veia e boas histórias para contar) enquanto o "santo da casa" Nuno Ávila punha discos. Óptima passagem por Coimbra, onde as recepcionistas de hotel coram com uma facilidade tocante.

19 de Janeiro: Rumo ao Porto: a cidade mágica, a cidade trágica, a cidade nunca vencida. Um dia de sol tão generoso quanto improvável para quem já tenha provado o rigor respeitável dos Invernos no Norte. Só aos republicanos é permitido afirmar que o aquecimento global não é uma verdade empírica. Desta vez, fiz o soundcheck atempadamente na FNAC de Santa Catarina, de modo que aproveitei a hora anterior ao concerto para subir até à Cordoaria e sentar-me na esplanada do Manuel Alves a depenicar uns rojões e a beber um copo de vinho tinto. O Porto parece-se cada vez mais com uma cidade do Norte da Europa. Uma das mais belas, diga-se. As praças são vastas pistas de pedra. Os edifícios desbotados pela chuva. Desperta-me uma imensa nostalgia. Ali passei à volta de 13 anos de vida.
Na FNAC esperam-me velhos amigos, caras conhecidas e outras que nem tanto. Últimamente, quando toco no Porto fico sempre indeciso se aquilo é um concerto ou a minha festa de anos. Toco relaxadamente, como quem sabe que ainda há muito trabalho pela frente nesse dia. É que à noite, nos Maus Hábitos (cimo da rua), é que o povo se vai juntar para a verdadeira festa. De qualquer modo, repete-se uma boa sala em Santa Catarina e uma série de discos vendidos.
Jantamos junto à Praça dos Poveiros com uma data de gente amiga. Entretanto, o Eurico Costa liga para combinarmos se vem tocar uma ou duas músicas. A resposta é claro que sim. Conheci o Eurico por intermédio do André Indiana e acabámos por andar a tocar juntos por todo o lado entre 2004 e 2007. É um guitarrista exímio e um pensador admirável com quem se ditaram 10.000 páginas de bons diálogos que nunca serão transcritos. Chegamos ao bar já bem animados. O staff é impecável e a sala está a aquecer. Quando entro, a festa está começada. Daí para a frente, só me lembro de um mar de gente, de a certa altura o Eurico entrar para tocar um solo de 10 minutos no "Adriana" e eu ficar a dançar ali ao lado, de estar a tocar "Os Demónios de Alcácer Quibir" e não me apetecer que aquilo acabe. De resto, toda a noite foi intensa. O Porto tem personagens que não lembram ao Diabo, nem a Deus, nem ao David Lynch. Muito divertido.



20 de Janeiro: Terminamos a festa na FNAC do Norteshopping, algo combalidos da noite anterior. Arranco com o "Anda Menina" para testar a voz que está meio perdida algures entre o nariz e o esófago. Mas as palavras continuam a ecoar, não sei porquê. Continuam a fazer-me acreditar em algo que já nem sabia que existia. Com o "Canção da Tua Rua" o gig engata, sem volta atrás. A viagem está prestes a terminar e, ainda no palco, já sinto saudades. Há uns abraços, umas fotos e assinaturas no fim, os Peixe:Avião vêm de Braga para falarmos do disco deles que muito promete. Está o grande Ronaldo com a sua voz de anjo sentado a rir-se do que lhes está a acontecer e eu preparo-me para voltar à estrada com a noite a cair e na memória: dois mil rostos ou um, dois mil rostos ou um, dois mil rostos. Ou um.

Obrigado a todos os que apareceram, e à gente do Porto por me receber sempre de braços abertos. Até já.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Menina Miséria

Em nome do mês de Janeiro. Da fragilidade. Da vida que traz sempre uma certa morte. E ainda de como uma má performance pode ser bem mais poderosa do que outras mais inspiradas. Quando vi este clip até ao fim, apaixonei-me pelo Elliott Smith. Entendi-o finalmente. E a essa mulher de quem fala. É o primeiro cantor homenageado neste blogue. Seguem-se muitos outros. Agora, silêncio que se ia cantar o desamparo.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Galeria do Desassossego

O concerto em Beja foi uma noite com todos. Até deu para cantar o "Ao Meu Encontro na Estrada". A cidade parecia alegre e desesperada com tanto desassossego. Houve palmas e ameaças de pancada. Lágrimas, promessas e desilusões. De manhã, comemos torradas de pão alentejano e viajámos por estradas luminosas até à Barragem do Alvito. Como sempre, Alentejo é casa. Cantar na sua capital é como dançar no confessionário do Cardeal Patriarca. Volto a 14 de Junho. Em nome da hospitalidade, da comida, da solidão. Em nome de mil brisas, de mil memórias, de mil horas de merecido silêncio.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Antes de sair

...devo responder a 4 (quatro) provocações carecidas de esclarecimento:

1) O que traz o "Idiot Wind" para o topo de qualquer catálogo de grandes canções é o facto de ser uma farsa: a canção, o Dylan, tudo.

2) É perfeitamente irrelevante se a catalogação de discos dos Palace Brothers é feita no B de Bonnie Prince Billy ou no W de Will Oldham. Isto desde que os discos de Samuel Úria se encontrem no F de Futuro Chefe de Estado Maior das Forças Armadas.

3) Recuso a insinuação de que eu apenas considere a classe dos críticos de arte em Portugal como inexistente por eles estarem para o fetichismo como as pessoas com vida sexual activa estão para o sexo. Antes de mais, julgo que se a um crítico de música em Portugal lhe for mostrado um côco ele o descreverá como uma bola castanha com pêlos.

4) Cabe ainda refutar o boato de que eu ande a ter um caso com a Dona Benvinda do Rés do Chão esquerdo. Se passo lá por casa, é para entregar as cartas do inquilino anterior.

Regresso a Beja

Em Beja combinou-se, com um mês de antecedência, encontro em frente ao Castelo às 3 da tarde de um dia de Agosto. Eu, que não compareci, sentei-me em Setembro na relva que ladeia as muralhas. E voltei cada ano, religiosamente.
Primeiro foi o tempo dos combóios, dos almoços arrastados, da Volta a Portugal em Bicicleta. Numa vez, fiz duzentos quilómetros só para apresentar a Estação dos Quintos a uma menina que desejava conhecer. Ela preferiu embriagar-se instantaneamente e desafiar-me nos matraquilhos a ouvir as três perguntas que habitam o silêncio. Em 2001, os Superego apresentaram o seu segundo disco "A Lenda Da Irresponsabilidade do Poeta" em Beja, com os ilustres convidados Manel Cruz e Quiné. Era uma noite de Fevereiro e caía uma daquelas chuvas torrenciais que levam um homem a acreditar em Deus. Na assistência estavam 12 pessoas. Entretanto, e talvez por isso, Beja, passou a exercer o seu reinado da planície dourada como mero ponto de referência e de passagem em direcção a Serpa, Cuba, Alvito, Viana do Alentejo, Vidigueira, Barragem de Odivelas... Em Julho passado, depois de uns dias a dormir na Barragem de Santa Clara e nas Minas de S. Domingos, segui para Beja, entrei no parque de campismo como se nada fosse, estacionei junto aos balneários, cumprimentei as senhoras da limpeza, fiz a barba e tomei um banho de 30 minutos. Lembrava-me que o camping de Beja tinha o melhor banho do Alentejo. À saída, distribuí sorrisos pelos empregados mais vigilantes e segui viagem rumo a Messejana onde já contava assistir à festa de touros.
Volto hoje à cidade. Para conhecer a Galeria do Desassossego. Para tocar canções de amor. Para comer carne de porco e beber vinho tinto. Única expectativa: que cada segundo tenha aquela verdade imprevisível que um quinto concerto em oito dias pode proporcionar. Mas deixa vir, não agoires...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Cabe perguntar

Tornar-me-ei eu, por alguma malfadada circustância, num daqueles bloguers repentinos de mensagens curtas e mordazes? - Pergunto-me assustado.
Será possível que ainda venha a dar por mim a ser amigo do Pacheco Pereira?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

A esquina depois do amor

Pode dizer-se que este blogue começa mal. Nasce no dia da morte de Heath Ledger, actor australiano de 28 anos. Uma das poucas pessoas reais na indústria de Hollywood... Não vi muitos dos seus filmes, nem tinha ainda decidido se ele seria ou não um grande actor. Estava obviamente no caminho de perceber qualquer coisa. E não ia deixar-se engolir pelo presente envenenado que o cinema lhe oferecera. Acima de tudo, era um tipo real. Havia qualquer coisa ali dentro que não dava para descobrir à primeira. O "Brokeback Mountain" foi um daqueles filmes cuja natureza e valor intrínsecos foi altamente prejudicado pelo hype que se gerou em sua volta. Para mim, confirmou a "sensibilidade e bom senso" do realizador Ang Lee (que me fora apresentada com o intrigante "Tempestade de Gelo") e revelou Heath Ledger. Uma pedrada no charco em Hollywood. Com peso, densidade e silêncio. Não posso dizer que esta morte tenha a consequência empobrecedora do desaparecimento de River Pheonix em 1993, porque nesse tempo não havia ninguém como o tunante River. Mas é o apagamento prematuro de um talento e daquele que todos descrevem como um bom homem, que se separara da esposa Michelle Williams em Agosto, de quem tinha uma filha, e que, qual Johnny Cash, não durou mais de 6 meses. Talvez o amor não mereça algumas pessoas. Talvez elas se convençam de que não são merecedoras dele. Heath Ledger rest in peace.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Declaração de intenções

Começo este blogue no descer da madrugada, nem por acaso a ouvir o "She Belongs To Me" do Bob Dylan, porque acabei de fabricar uma compilação dos seus "early years" e estreio-me a ouvi-la quando em vez de me ir deitar decido não mais adiar este projecto. Ter um blogue. Outro projecto será fazer compilações pessoais do Tom Waits, do Leonard Cohen, do Carlos Paião. Há qualquer coisa de perturbadoramente pacífico no Rio Tejo de madrugada (que me aparece à esquerda pela janela). É como se fosse piada essa notícia de que há mais de um milhão de pessoas aqui à sua volta. Pretendo com este blogue: ser egocêntrico, ser filosófico de uma maneira chata acerca de coisas sobre as quais não é preciso dizer-se nada no fundo, fazer propaganda sobre tudo aquilo que me interessa, deixar dissertações íntimas ao chegar a casa embriagado, dar a conhecer a nova música portuguesa, dar a conhecer a velha música portuguesa, ofender os tarefeiros da arte, os networkers e todo o tipo de animais desinteressantes e homenagear tudo o que mexa que tenha alguma onda, porque já estamos fartos dessa falsa timidez portuguesa, desse medo de explorar, da asae, da emel, da ecalma e de tudo aquilo que quer assustar com a sua pequenês que é - antes de mais - enfadonha! Por isso, meus amigos, como se diz no Porto: Grizem-se! Nada é assim tão importante... É essa a chave para o enorme valor de todas as coisas.